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John McAfee: a vida e a morte do polêmico milionário

Na última quarta-feira (23), fomos surpreendidos pela notícia de que John McAfee — criador do antivírus que leva seu nome e assíduo entusiasta das criptomoedas — morreu aos 75 anos em uma prisão da Espanha, supostamente vítima de um suicídio.

No mesmo dia, pela manhã, o Supremo Tribunal da Espanha autorizou a extradição de McAfee para os Estados Unidos, para que ele pudesse ser julgado pelas suas acusações criminais em solo norteamericano.

A hipótese de suicídio é a mais amplamente aceita, tendo em vista que McAfee era um antigo alvo da justiça dos EUA e poderia enfrentar duras penas após sua extradição, que provavelmente o manteriam preso até o fim de sua vida.

Mas, afinal, você sabe mesmo quem foi John McAfee?

A origem do antivírus McAfee

McAfee foi um dos pioneiros quando se trata de dispositivos que garantem a segurança na internet. Na década de 70, trabalhou em relevantes empresas de tecnologia, como a Nasa, Xerox e Lockheed.

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Imagem antiga de John McAfee programando

No entanto, em 1987, o excêntrico desenvolvedor decidiu fundar sua própria companhia, a McAfee Associates, com o intuito de ser pioneiro no ramo dos softwares antivírus — e foi o que aconteceu.

Alguns anos depois, em 1994, McAfee resolveu vender a sua parte na empresa por US$ 100 milhões, por insatisfação dos outros acionistas que se opuseram ao seu jeito, digamos, “não-tradicional” de conduzir a empresa.

Desde então, a McAfee Associates passou por diversas reformulações até ser comprada pela gigante Intel por US$ 7,6 bilhões em 2010. A fabricante de processadores chegou a cogitar um rebrand do antivírus para Intel Security, o que rendeu uma declaração polêmica de John McAfee, insatisfeito com o rumo que o programa havia tomado:

“Eu sou eternamente grato pela Intel por me livrar dessa terrível associação com o pior software do planeta. Estas não são só palavras minhas, mas sim palavras de milhões de usuários irados”, afirmou.

Além disso, John até fez um vídeo “ensinando” a desinstalar o antivírus, onde deixou claro que não tinha relação nenhuma com o software há mais de 15 anos no momento do vídeo.

Para o desgosto do programador, a companhia desistiu do rebrand e o nome McAfee segue em uso até hoje.

A vida de McAfee após vender sua empresa

Após deixar a companhia que leva seu nome em 1994, McAfee embarcou em outros negócios menos prósperos e até se mudou para Belize, anos depois, no intuito de criar antibióticos para combater vírus e bactérias — dessa vez, em pessoas em vez de máquinas.

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John McAfee com seus guardas em Belize

Em Belize, McAfee afirmou ter sido vítima de perseguições do governo após se manifestar contra a corrupção no país. Lá, ele foi detido e teve sua fábrica invadida e bens apreendidos.

“Fiquei lá por um ano e o político local enviou um representante que me pediu US$ 2 milhões para uma doação de campanha. Eu disse não. Duas semanas depois, eles invadiram meu complexo”, disse McAfee à BBC.

Mais tarde, naquele ano, ele se tornou um alvo das investigações do assassinato de seu vizinho, Gregory Faull, encontrado morto após uma briga com McAfee. Em 2019, o empresário foi condenado a pagar US$ 25 milhões em um processo por homicídio culposo.

Candidatura à presidência dos EUA

De volta aos EUA, McAfee se candidatou à presidência em 2016 pelo Partido Libertário.

Em sua campanha, fez promessas como a descriminalização da maconha a nível federal, o fim da guerra às drogas, uma economia de livre mercado sem redistribuição de riquezas e o não-intervencionismo em políticas estrangeiras, tudo com o seu jeitão excêntrico de ser.

O problema, no entanto, é que suas visões políticas e econômicas eram radicais demais para o establishment americano, e suas posições ideológicas começaram a incomodar o governo.

McAfee acreditava, por exemplo, que os impostos eram ilegítimos e em 2019 chegou a afirmar abertamente que não havia declarado o imposto de renda desde 2010 — fato que, segundo ele mesmo, o tornaria alvo da Receita Federal americana.

Nesse mesmo ano, ao mesmo tempo em que decidiu lançar uma segunda candidatura à presidência, nas eleições de 2020, ele morou durante um período em um barco em alto mar, para evitar uma possível prisão.

Criptomoedas e prisão

Todo esse aparato não foi suficiente. No dia 5 de outubro do ano passado, McAfee foi preso na Espanha por evasão fiscal.

Logo após isso, a Comissão de Valores Mobiliários (SEC) também denunciou o programador por se envolver com esquemas fraudulentos de criptomoedas, da espécie pump and dump.

Pump and dump é o termo usado para designar movimentos com o intuito de subir rapidamente o preço de uma criptomoeda e lucrar com isso. Geralmente, esse esquema é promovido por personalidades com influência ou grupos dedicados a isso.

Nessas operações, quem mais se beneficia é a pessoa que promove o trade — ele compra grandes quantidades de uma moeda pouco conhecida num valor irrisório, divulga e recomenda a compra da mesma para um grande número de pessoas (pump) e, quando atinge o lucro desejado, vende o seu capital, derrubando o valor do ativo (dump).

De acordo com a denúncia do SEC, entre novembro de 2017 e fevereiro de 2018, “McAfee utilizou sua fama para ganhar mais de US$ 23,1 milhões em pagamento secreto para divulgar ao menos sete ICOs de moedas”.

John passou a promover tanto o mercado de criptomoedas que, em 2017, prometeu que “comeria seu próprio pênis em rede nacional” caso o valor do Bitcoin não atingisse US$ 1 milhão até o fim de 2020.

A polêmica morte de McAfee

Diferente das outras vezes, em que havia ficado preso por curtos períodos de tempo, dessa vez McAfee foi mantido em cárcere numa prisão na Catalunha, em território espanhol.

Finalmente, no dia 23 de junho, a corte espanhola aprovou sua extradição para os EUA. Poucas horas depois, McAfee foi encontrado morto, com um bilhete de suicídio em seu bolso.

De acordo com a autópsia oficial, não há dúvidas de que McAfee cometeu suicídio — no entanto, essa alegação não é aceita pela internet e nem por sua viúva, Janice McAfee, que solicitou uma autópsia independente, cuja possibilidade está sendo analisada pela Justiça espanhola.

As teorias da conspiração ganharam força após os internautas resgatarem um tweet publicado por John em 2019, em que ele diz que, caso fosse encontrasse morto vítima de um “suicídio”, essa não seria a real causa da morte:

Estou recebendo mensagens sutis de oficiais dos EUA dizendo: ‘Estamos atrás de você, McAfee! Nós vamos te suicidar’. Fiz uma tatuagem hoje só para prevenir. Se eu me suicidar, não fui eu. Me apagaram. Veja meu braço direito!

john mcafee tattoo
“Whackd” significa golpeado em português

Legado marcante

Embora sua vida tenha sido repleta de polêmicas e controvérsias, é impossível não reconhecer o legado que John McAfee deixa na área de privacidade e segurança cibernética.

Além de criar o primeiro antivírus do mercado, desenvolveu inúmeras aplicações voltadas à proteção de dados e, apesar dos pesares, ajudou a propagar o mercado das criptomoedas, que proporcionam, a princípio, muito mais segurança e privacidade que métodos financeiros tradicionais.

No fim das contas, John McAfee foi uma figura carismática, que viveu o libertarianismo da melhor forma que conseguiu e faleceu de forma trágica, vítima do opressor ecossistema político que tanto odiava.

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